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CUIABA, 8 (FOLHA) –

“No começo eram as pedras, que apareciam de uma hora para outra, destruindo vários pertences nossos; agora, porém, surgiu o fogo, que destrói tudo”. E a casa da travessa da luz, 40, em Cuiabá, da família Leite Silva, passou a ser conhecida como a “Casa do Fogo”.

Quando apenas as pedras “faziam visitas” a sua casa, José Leite não se importa muito; mas com a vinda do fogo, que aparece e desaparece num instante, correu à Polícia.

As mais diferentes versões aparecem. Uns dizem que é castigo divino; outros, que é macumba, espiritismo ou superstição de ano bissexto. O que ninguém tentou verificar, ainda, é se não existe um fio em curto-circuito.

Comentário:
 
Matéria de 09/01/1964, do acervo virtual FOLHA. Interessante notar a “sutileza” do jornalista ao sugerir primeiramente o óbvio. Isto parece nos faltar hoje, enquanto espíritas. Duvido que alguns, ao lerem o começo do texto, já não imaginavam um efeito físico e, realmente, quem sabe?

read more "Curto-Circuito."

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Esta curiosa comunicação não possui uma datação específica. Porém, está após a comunicação “Minha Missão” de 07/05/1856 e “Acontecimentos” de 12/05/1856. Podemos presumir, portanto, este intervalo. Consta integralmente em: Obras Póstumas – Segunda Parte - A MINHA PRIMEIRA INICIAÇÃO NO ESPIRITISMO.

ACONTECIMENTOS

Pergunta — A comunicação há dias dada faz presumir, ao que parece, acontecimentos muito graves. Poderás dar-nos algumas explicações a respeito?

Qual seria esta comunicação, o que dizia? Não sabemos.

RespostaNão podemos precisar os fatos. O que podemos dizer é que haverá muitas ruínas e desolações, pois são chegados os tempos preditos de uma renovação da Humanidade.

Como sabemos, o futuro não está escrito. Como dispõem de mais liberdade e maior ação, os espíritos podem se informar sobre fatos que, para nós, seriam reais apenas na imaginação. Compreender isto é fundamental.

P. — Quem causará essas ruínas? Será um cataclismo?

Para contragosto daqueles que AINDA desejam ver cataclismos...

R. — Nenhum cataclismo de ordem material haverá, como o entendeis, mas flagelos de toda espécie assolarão as nações; a guerra dizimará os povos; as instituições vetustas se abismarão em ondas de sangue. Faz-se mister que o velho mundo se esboroe, para que uma nova era se abra ao progresso.

A previsão de algo assim deve ter soado como suspeito e talvez Kardec não tenha dado muito interesse ao assunto por isso.

P. — A guerra não se circunscreverá então a uma região?

R. — Não, abrangerá a Terra.

Algo assim jamais havia ocorrido. Era uma afirmação muito instigante.

P. — Nada, entretanto, neste momento, parece pressagiar uma tempestade próxima.

Não estou bem certo do contexto político da Europa neste período. No entanto, a resposta de Kardec nos faz presumir que, de fato, nada dava a entender um possível grande conflito.

R.As coisas estão por fio de teia de aranha, meio partido.

Kardec se mostra surpreso e com alguma razão. Pelo que pude perceber não havia, realmente, nada que demonstrasse um conflito dessas proporções. A coisa começou a mudar somente a partir de 1906, através da produção massiva de Navios de Guerra entre a Inglaterra e a Alemanha.

P. — Poder-se-á, sem indiscrição, perguntar donde partirá a primeira centelha?

R.Da Itália.

A única guerra que ocorreria cerca de 10 anos depois e levando à óbito cerca de 100 mil pessoas é a chamada “Guera das Sete Semanas” onde a Itália saiu vitoriosa, conquistando territórios. Esta guerra envolveu alguns países e, embora toda guerra seja uma tragédia por si só, ela não parece se enquadrar na descrição do espírito.

Estaria ele falando da WW1? (Primeira Guerra Mundial), que começaria em 1914?

Ao lermos a descrição “a guerra dizimará os povos; as instituições vetustas se abismarão em ondas de sangue” imaginamos algo grandioso, uma tragédia sob o mundo.

Mas, ao que tudo indica a Itália não teve um papel fundamental na primeira guerra, embora tenha saído com benefícios territoriais, não parece ter influído decisivamente na mesma.

Se pudéssemos apontar uma “centelha” ela certamente seria direcionada para o império Austro-Húngaro e a Sérvia que, como todos sabem, estreitaram as relações após a morte de Francisco Ferdinando pelo Sérvio Gavrillo Princip, embora os historiadores hoje apontem uma série de processos complexos precediam o assassinato.

Vamos aos dados da primeira guerra:

Envolvidos:

Sérvia, Império Russo, França, Império Britânico, Império Português, Império Italiano, Estados Unidos, Brasil, Império do Japão, Império Alemão, Império Austro-Húngaro, Bulgária e Império Otomano (ainda há uma lista de mais ou menos 15 outros países aliados).

Temos, portanto, quase 30 países que, direta ou indiretamente, participaram na guerra cujo saldo foi de, aproximadamente, 19 milhões de mortos.

Podemos, seguramente, afirmar que tamanho conflito cabe, perfeitamente, na descrição do espírito.

Considero, por fim, a citação da Itália como ponto de partida da Guerra uma afirmação não procedente, pois, sabemos, ela não ocupou este papel, tendo, porém, participação. Cabe ressaltar, ainda, que logo no início o espírito admite não poder precisar os fatos.

De qualquer forma, isto não apaga este impressionante caso de previsão cumprida onde um conflito previsto cerca de 58 anos antes, envolvendo todo o mundo (claro, a expressão “todo” assim como a expressão “guerra mundial” é uma figura de linguagem), em que “povos seriam dizimados”, “abrangendo toda a Terra” se confirmasse no episódio que ficou conhecido como a “Guerra das Guerras”.


Nota: Este texto não tem cunho histórico. Os dados apresentados foram colhidos da própria internet. Portanto, apontar erros ou sugerir complementos, são situações bem-vindas.
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Manifestação fenomenológica metapsíquica de um menor de 12 anos.


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SACRAMENTO, 12 (Do nosso correspondente) – Na vizinha famosa estância balneária de Araxá, acaba de aparecer uma dessas crianças prodígios, cujas pequeninas mãos alçam corajosas o pesado véu da metapsíquica humana, desvendando horizontes novos, que fulguram e que seduzem e, esquisitamente, deslumbram o fraquíssimo saber do homem. Esse jovem, de família paupérrima, que há muitos anos reside naquela cidade mineira, chama-se Belgares Ribeiro de Almeida. Conta atualmente 12 anos de idade e freqüenta o 4º ano do Grupo Escolar.

Há perto de três meses, com enorme espanto de toda a cidade, Belgares fala e escreve correta num idioma estranho que ele facilmente traduz. E foi subitamente que adquiriu esta faculdade, a que o professor Richt considera “verdadeiro milagre”... Àquela cidade, tem ido diversos estudiosos do alto espiritismo que se mostram plenamente satisfeitos com a raríssima mediunidade de Belgares Ribeiro, que está despertando enorme curiosidade no seio das classes intelectuais de Minas e de São Paulo.

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Até o momento em que escrevo, não sei que idioma é o falado por esse menino. Embora tenham suposto, conforme se depreende através de notícias veiculadas por jornais de Minas, ser o hebraico, posso afirmar que os poucos intelectuais que ouviram o menino não conseguiram identificar o estranho idioma com que fala e escreve.

O pai de Belgares, humilde seleiro residente em Araxá, de nome Olaudionor Ribeiro de Almeida, já recebeu vários convites para ir a São Paulo em companhia daquele seu filho.

Folha da Manhã - 14/06/1933 - Retirado do acervo online folha.




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Os Fenômenos Supranormais

Reportagem de Hellen

Os meios médicos de S. Paulo interessaram-se muito pelas pesquisas que o Dr. Osório César andou fazendo nos domínios do supranormal. As pesquisas, entretanto, repercutiram fora do ambiente médico. Sabia-se que o distinto anátomo-patologista do Hospital do Juqueri, reunia em seu apartamento da Avenida S. João, uma vez por semana, amigos estudiosos dos fenômenos mediúnicos. Sabia-se que um distinto médium Paranaese proporcionara ao círculo interessantíssimos casos de incorporação. O Dr. Osório fez diversas comunicações à Associação de Medicina e proferiu conferências, depois, o silêncio.

Existe uma grande curiosidade em torno das conclusões a que teria chegado o médico psiquiatra. Os espíritas discutem as apresentações feitas por Osório César como manifestações insofismáveis de outro mundo; os materialistas vêem nelas apoio às suas teorias. Para elucidar uns e outros, resolvemos procurar o Dr. Osório César. Isto foi precisamente na quinta-feira e, uma vez no pequeno apartamento daquele 7º andar, vimos que não escolhêramos a ocasião com bastante tato... Devíamos saber que as noites de quinta-feira eram eleitas pelos amigos do conhecido médico e crítico de arte para palestras, trocas de ideias, audições musicais. As duas pequenas salas regurgitam nessas noites de artistas plásticos, críticos, escritores... Mesmo assim, fomos recebidos, dissemos a que vínhamos e Osório César começou a falar, enquanto outro Osório César, criado por Carlos Prado, nos fitava enfaticamente, da parede.

- “Antes de mais nada, quero que saibam que não foi o espírito ortodoxo quem me fez assistir a essas sessões mediúnicas. Fui e continuo materialista. O que vi, mesmo o que ainda a ciência de hoje não pôde explicar, não me convence da existência de um outro mundo; os fenômenos inexplicáveis são profundamente materiais. A questão do ectoplasma, por exemplo. É sabido que essa é uma substância que sai do corpo do médium e adquire forma, ou não a adquire, fazendo apenas manchas nebulosas. Constata-se que os médiuns, nessas ocasiões, perdem peso, transpiram extraordinariamente e, durante o transe, ficam como um fio de pulso... Como vêem, o ectoplasma deve ser considerado como coisa fisiológica; Também não sou negativista... A ciência poderá levar-nos amanhã para a conclusão de que existe outra vida. Em todo o caso, acredito que seja uma vida toda material, que venhamos travar conhecimentos com habitantes da quarta dimensão. Nesse ponto, interrompemos o entrevistado: “Yo no lo creo em las bruxas, pero que las hay, las ha!”.

Osório riu, e continuou: “Em meu livro ‘Misticismo e Loucura’, tratei do baixo espiritismo, dei-o como manifestação de pura histeria. Tempos depois da publicação desse livro, fui procurado por um senhor paranaese que me disse: - “O senhor não assistiu nunca a uma honesta sessão espírita, sem fraudes, com fenômenos supranormais. “Desejo proporcionar-lhe a ocasião de assistir uma”. Foi aí que me apaixonei por essas pesquisas. Se existem histéricos, fraudes, etc., engabelando o povo, existem fenômenos insofismáveis que a ciência ainda não explica hoje; poderá explicar amanhã... Em todo caso, não posso mais negar a realidade do que se convencionou chamar de “supranormal”. É necessário, a quem quiser conhecer esses curiosos fenômenos, orientar-se por métodos de base científica, a fim de poder compreender melhor tais manifestações que se produzem além das fronteiras do conhecimento normal do nosso mundo mental e físico.

De acordo com os estudos clássicos dos metapsíquicos, os fenômenos supranormais se acham divididos em duas categorias: materiais ou físicos e psíquicos ou intelectuais. Da primeira categoria são os seguintes fenômenos: golpes nos móveis, nas paredes, no teto, chamados pelos observadores ingleses de “raps”; ruídos diversos como os de raspagens de unhas sobre os móveis, dilareceração de fibras de madeira, etc. Movimentos de objetos sem contato visível (telecinese) como a levitação de um corpo qualquer. Transportes de objetos de um lugar distante; passagem da matéria através da matéria; fenômenos visuais, como emanações desprendidas dos corpos, clarões amorfos e, às vezes, coloridos; materializações de formas humanas, podendo ser luminosas ou escuras; fenômenos que deixam impressões permanentes em moldes de cera, desenhos, etc. Mudanças sensíveis de temperatura, ondas de perfumes, etc. Na segunda categoria, entram os fenômenos subjetivos: Incorporação (personalidades já falecidas que se comunicam através do médium em estado de inconsciência); escrita automática (médium em estado de consciência escreve sem que, nisso, influa o seu estado mental); voz direta (entidades que materializam apenas os órgãos vocais e falam através de megafones ou sem eles, com timbres muitas vezes atribuídos como sendo de pessoas conhecidas).

A manifestação da voz direta é a mais assombrosa de todas as manifestações mediúnicas de natureza subjetiva. Para que se produzam quaisquer desses fenômenos supranormais, é necessária, acima de tudo, a presença de um médium. Diz Geley que o médium é um ser “cujos elementos constitutivos, mentais, dinâmicos, são capazes de se descentralizarem momentaneamente”. Além da presença do médium, é necessário que o observador siga as seguintes condições: organizar um grupo no máximo de seis pessoas; orientar as pesquisas cientificamente, sintonizar o ambiente com o fito elevado de conhecer a verdade; escurecer completamente o local dos trabalhos. Excepcionalmente quando o médium é poderoso, operar à luz vermelha na penumbra. As experiências demonstram que a luz branca é nociva ao médium em estado de transe e dissolve rapidamente o ectoplasma. Deve-se vibrar o ambiente com ondas sonoras para apressar e facilitar a produção dos fenômenos; e evitar concentração do pensamento. “Palestrar o tempo todo até a aparição dos primeiros fenômenos”. Osório levanta-se, esparrama os olhos pelos seus amados quadros, interrompe-se para explicar que um deles, que apresenta uma estranha mulher meio alga, meio mulher, meio sereia, meio deidade, é de France Dupaty, depois retorna ao assunto da entrevista:

- “Como sabe, não é de hoje que me interesso por essas questões metapsíquicas. O meu fito principal por esses estudos é exclusivamente de caráter científico. Os métodos adotados em minhas experiências tem sido mais ou menos os mesmos descritos nas obras de Geley e Mme. Brisson. Já tendo visto, constatado, fotografado nas minhas sessões quase tudo que os homens de ciência da Europa e da América viram, observaram e estudaram em relação às manifestações metapsíquicas. Refiro-me àqueles homens de ciência que dedicaram uma boa parte de suas vidas ao estudo científico da mediunidade, como William Crooks, Richet, Geley, Schrenck-notzing, etc. As minhas observações têm sido orientadas na categoria dos fenômenos teleplásticos. E, nesse sentido, já obtive inúmeras fotografias que atestam a realidade de tais fenômenos. A gênese teleplástica dos fenômenos de corporificação é ainda um problema muito sério para os estudiosos da metapsíquica. Muitíssimo pouco se sabe até agora das leis que determinam as produções desses fenômenos, que contradizem, até certo ponto, os nossos clássicos conhecimentos de Biologia e de Física. Indiscutivelmente, há uma força inteligente, autônoma, que dirige, organiza e plasma essas produções ideoplásticas, sem absolutamente provir do consciente do médium. A mediunidade, segundo penso, é uma rara qualidade sensitiva de atração, peculiar ao reino animal e dirigida no sentido de captar, condensar, organizar, desenvolver certas energias que oscilam no éter em intensidades não perceptíveis aos nossos comuns sentidos, para poder produzir fenômenos subjetivos e materiais de duração efêmera.

O estado de transe também é, no meu modo de pensar, uma particularidade fisiológica supranormal, que a maioria dos médiuns apresenta, a fim de facilitar a transformação de intensidade dessas energias oscilando no éter. Há quem veja no fenômeno da incorporação uma simples manifestação de dupla personalidade, revelações do inconsciente, etc... A ciência não chega a uma conclusão”.

- “De modo que...”

Interrompemos, e fomos interrompidos:

- “De modo que os espíritas continuam a enxergar com os olhos da fé e a explicar com Allan Kardec o que nós preferimos deixar para a ciência do amanhã resolver...”

Quando saímos do apartamento de Osório César, àquela hora da noite, parecia-nos que ectoplasmas cirandavam à nossa volta...

“Yo no creo em las bruxas, pero que las hay...”

Folha da Manhã. São Paulo – Terça-feira, 15 de Janeiro de 1946.


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Revisando meus antigos tópicos na comunidade EeD, encontrei alguns print's que tirei da antiga casa de Kardec, na rua dos Mártires, nº 8.

Vejam:

read more "Antiga casa de Kardec."

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Parte 1



Parte 2



Achei interessante este vídeo, mais que o do Ian, pela presença de inúmeros fatos:

a) O garoto se lembrava de detalhes como nomes e locais;
b) Pessoas vivas atestaram a versão do garoto;
c) Exceto a reencarnação, a hipótese mais provável seria a fraude, o que envolveria uma gama de pessoas cuidadosamente articuladas, o que é mais improvável que a hipótese da reencarnação em si.
read more "O Caso de James Leininger."

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Ian Hagedorn é um menino americano que aos quatro anos já sofreu nada menos que seis cirurgias. Possui problemas cardíacos; um lado do coração mal desenvolvido em razão de uma lesão grave numa artéria pulmonar defeituosa. Sente falta de ar e inspira supremos cuidados à equipe médica que é responsável pelo seu tratamento; mas este não é o ponto. (leia mais)



Casos assim me fazem pensar. Tenho muita resistência para aceitar que uma morte "eventual" possa ocasionar, de alguma forma, uma espécie de reprodução de seu desfecho numa nova encarnação. Mas, muitos são os relatos deste tipo. Interessante!


read more "O caso de Ian Hagedorn."

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Texto de David Nasser e Fotos de Jean Manzon.


Era uma vez um moço ingênuo e feliz, vivendo numa cidadezinha ingênua e feliz, perto de Belo Horizonte. O moço se chamava Francisco Cândido Xavier e não desmentia o nome. A cidadezinha, Pedro Leopoldo, arrastava suas horas de doce paz, entre as missas de domingo e a chegada do trem da capital. Não se sabe como, numa noite ou num dia, Chico se mostrou inquieto e desandou a escrever. Terminando, disse, apenas, à família assustada: - "Não fui eu. Alguém me empurrava a mão". Desce êsse dia ou essa noite, Chico Xavier perdeu o sossêgo e também o de sua cidade.

Turistas chegavam, atraídos pela fama do moço-profeta. Pedro Leopoldo ia crescendo e Chico Xavier ia ficando importante. Nunca mais teve paz. Nunca mais pôde sair pela rua, sem ouvir um pedido de saúde ou uma prece de gratidão. Se ao menos fôsse só isto. Era mais, muito mais. Eram os curiosos do Rio, de São Paulo e de Belo Horizonte, pedindo consultas ou detalhes pelo telefone interurbano. Era a legião de repórteres em busca de novas mensagens. O representante da editôra insistindo por outros livros. Os centros espíritas de todo o país solicitando pormenores. Uma vida infernal, agitada, barulhenta sacudia o pobre rapaz.

As luzes dos lampiões da cidadezinha nunca mais dormiram sem a presença de um estrangeiro, rondando pelas ruas dantes tão sossegadas.

Fixaremos, precisamente, a violenta mudança de vida de Chico Xavier e da cidade de Pedro Leopoldo. Não nos interessa, embora pareça estranho, o medium Chico Xavier, mas a sua vida. Os seus trabalhos psicografados - ou não psicografados - já foram assunto de milhares de histórias, divulgadas desde 1935. Se são reais ou forjadas, decidam os cientistas. Se êle é inocente ou culpado dirão os juízes. Se êle é casto, instruído, bondoso, calmo, diremos nós. Porque não somos detetives do além.

Se os espíritos nos ouvem, êles sabem que não acreditamos em suas mensagens, nem desacreditamos de suas virtudes literárias. A verdade é que não temos a bravura indispensável para avançar sôbre o terreno pantanoso do outro mundo e analisar suas reais ou irreais comunicações utilizando aparelhos de escuta com êste pálido e sensitivo Chico Cândido Xavier. Desde que saímos daqui, levávamos a inabalável determinação de fazer uma reportagem sem complicações, apesar do assunto em sua natureza extra-terrena mostrar-se absolutamente complicado.

Assim é que o senhor, amigo, chegará ao fim destas linhas sem obter a certeza que há tanto tempo procura: "É Chico Xavier um impostor ou não é?" E dirá: - "Não conseguiram desvendar o mistério!" Sim, o mistério continuará por muito tempo. Eternamente. E Chico Xavier morrerá, sem revelar o segrêdo de sua extraordinária habilidade ao escrever de olhos fechados, se é mágico, ou de seu fantástico virtuosismo, ao chamar, além das fronteiras da vida, as almas dos imortais, fazendo-os recordar os velhos tempos da Academia. Nossa intenção é mostrar o homem. Sem o espírito dentro de si, nos momentos vulgares, Chico Xavier é adorável, cândido, maneiroso, humilde, um anjo de criatura. A frase de uma vizinha define melhor: - "Sabe, moço? O Chico é um amor". Justamente dêsse tipo desconhecido, da parte anônima de sua devassada vida, é que tratamos, na hora e meia que permanecemos em Pedro Leopoldo. Para começar, diremos que Chico nunca teve uma namorada.

O tempo de viagem de Belo Horizonte a Pedro Leopoldo não vai além de hora e meia. A meio caminho, encontramos a fazenda federal onde Chico Xavier é dactilógrafo. O motorista não quer entrar. - "Aí, não. Até os zebus são atuados". O diretor, Rômulo, está na horta, sòzinho. Êle nos dará, talvez, esclarecimentos sôbre a vida de Chico e, quem sabe, facilitará o encontro com o sensitivo. Ouve o pedido. Depois, lentamente, abana a cabeça e o seu "não" é inflexível, desde o primeiro minuto. Alega um milhão de coisas. Que Chico anda cansado e precisa repousar. Um de nós lembra a possibilidade dêle, diretor, dar umas férias a Chico. - "O Chico funcionário nada tem a ver com o outro Chico". Apresentadas as despedidas, êle adverte: - "Não creio que será possível aos senhores um encontro com êle. Creio que vão esperar até sexta-feira".

Voltamos a deslizar pela estrada, neste sábado negro. A cidade aparece depois de uma curva. - "Onde fica a casa do Chico Xavier?" O menino aponta a igreja. - "Ali, na rua da matriz. Ele mora com a família". Encontraríamos, em várias oportunidades, a mesma designação do pessoal do município: êle. Todos apontavam Chico, sem recorrer ao nome. Êle só podia ser êle. - "Minha irmã foi curada por êle".

Ei-lo aqui, diante de nós. Veio a pé da fazenda e em sua companhia um senhor do Rio, que algumas vêzes vem passar semanas com o medium. - "Gosto de falar com êle. É um rapaz de cultura. Discute vários assuntos, lê um pouco de inglês e de francês. Devora os livros com fúria. Trouxe-lhe, há dias, "O homem, êsse desconhecido" e êle não gastou mais de quatro horas e meia para ler o volume gordo. É um prazer para êle. Seu único amor é o espiritismo".

Chico, perto de nós, não está ouvindo a palestra. Conversa com Jean Manzon. Devemos esclarecer que não dissemos qual a organização jornalística em que trabalhávamos. Queríamos ver se o espírito adivinhava. Não houve oportunidade.

Chico parecer ser um bom sujeito. Suas ações, mesmo fora do terreno religioso pròpriamente dito, são ações que o recomendam como alma pura e de nobres sentimentos. Vão dizer, os espíritas, que é natural: todo o espírita dever ser assim. Sei de um que não teve dúvida em abandonar a espôsa, o lar, sete filhos, um dos quais doente do pulmão.

- "Na rua, entre seus irmãos de seita, - disse-me um dos filhos - êle se mostrava esplêndido, generoso, cordial. Em casa, por pouco não botava fogo nas camas, à noite. Parecia um verdadeiro demônio. Guardava até alface no cofre-forte”.

Já o Chico não é assim. Sua nobreza de caráter principia em casa. Todos os seus irmãos e irmãs louvam a sua generosa e invariável linha de conduta, protegendo-os, hora a hora, dia a dia, através dos anos, trabalhando como um mouro. Um de seus sobrinhos sofre de paralisia infantil. Atirado a um berço, chora eternamente. Sòmente o Chico vai lá, fazer companhia ao garôto, às vêzes uma noite inteira.

- Chico!

- Que é, meu senhor?

- Você lê muito?

- Não. Só revistas e jornais.

- O outro disse...

-Disse o quê.

- Nada.

Êle nos olha, surprêso, quando a pergunta, como um busca-pé, sai correndo pela sala:

- Você, não pensa em se casar, Chico?

- Eu, casar? (Dá uma gargalhada) - Claro que não.

- Não namora?

- Nunca.

- Por que?

- Não há razões. Não gosto. Tenho outras preocupações. Ora, eu namorando... Tinha graça...

- Chico...

- Que é?

- É verdade que o padre desafiou você para um duelo verbal?

- Êle disse pra eu ir à igreja discutir. Não é lugar próprio.

- Você gosta do padre, Chico?

E êle, o ingênuo e feliz Chico, respondeu:

- Ué, eu gosto do padre, mas êle não gosta de mim.

- Chico...

- Que é?

- Onde estão suas mensagens?

- Um irmão levou tudo, em vista de tantas complicações.

- Você vai ao Rio?

- Até agora, nada resolvemos. Possìvelmente, mandarei uma procuração.

Numa estante, os livros de Chico. Versos de Guerra Junqueiro, Tolstoi e uma porção de autores mortos. Na sala do lado está a mesa onde êle recebe as mensagens. Uma papelada branca, pronta para ser coberta pelas mensagens do outro mundo. Sexta-feira houve mais uma sessão, desta vez presidida pelo chefe do executivo municipal. Humberto de Campos não compareceu mas o Emanuel, guia de Chico, lá estava. Quem é Emanuel? Um romano que existiu na mesma época de Jesus e conta um mundo de coisas interessantes sôbre a terra, naqueles tampos de há dois mil anos.

- Êle dita?

- Vou psicografando as mensagens. Há outros mediuns, como um norte-americano, que ouve as vozes dos espíritos tão alto que os presentes também escutam. Eu ouço. Os outros, que estão perto, não.

- Chico...

- Que é?

- Já teve oportunidade de falar com espírito de homens célebres?

- Homens célebres?

- Napoleão, para um exemplo, já falou consigo?

- Que eu saiba, não. Os assuntos bélicos não são freqüentes, nas mensagens que recebo do além. Há seis anos, entretanto, meu guia Emanuel previu os principais acontecimentos que hoje revolucionam a terra. Êle disse: - "A vitória da fôrça é fictícia".

O cavalheiro do Rio acode:

- E o próprio Chico, meses antes, previu a queda da Itália. Êle disse, categòricamente, que a Itália seria a primeira a cair. E a Itália foi a primeira a cair.

Pedro Leopoldo é a cidadezinha de uma rua grande e uma porção de ruas pequenas, convergindo para ela como servos humildes do rio principal. A casa de Chico é uma das melhores do lugar. Três quartos, sala e cozinha. O banheiro é lá fora, no fundo do quintal, ao lado do galinheiro. Chico se levanta de madrugada e vai dar milho às galinhas. Depois, sua irmã solteira faz o café, que êle toma com pão dormido, porque o padeiro ainda não chegou. Apanha a pasta de documentos da fazenda federal, e vai andando pela estrada, ainda coberta pela neblina. Volta para almoçar às onze horas. O expediente se encerra às dezoito horas, mas Chico, nestes dias de maior trabalho, faz serão. Sua vida é frugal. - "Quero que compreendam o seguinte: não vivo das mensagens de além-túmulo. Tenho necessidade de trabalhar para sustentar minha família. Se quase me dedico inteiramente a receber as comunicações, ainda se entende. O pior, entretanto, é a onda de gente que vem do Rio, de São Paulo e de todos os Estados".

- Peregrinos?

- Mais ou menos. Não posso deixar de recebê-los, pois fico pensando que vieram de longe e necessitam de consôlo. Isto leva tempo, toma tempo. Como se não bastassem essas preocupações, o telefone interurbano não pára dia e noite. - "Chico, Rio está chamando... Chico, Belo Horizonte está chamando... Chico, São Paulo está chamando... Chico, Cachoeira está chamando..." Evito atender, mesmo constrangido. Meu Deus! Eu não quero nada, senão a paz dos tempos antigos, o silêncio de outrora. Quero ser de novo aquêle Chico sossegado e tranqüilo que apenas se preocupava com as coisas simples...

- Impossível a viagem de volta...

- Impossível? Não, não é impossível. Eu voltarei a ser aquêle sossegado Chico. Não tenha dúvida.

O repórter imagina, a essa altura, que êle acredita na possibilidade de suas comunicações, com o além serem repentinamente suspensas. Vai perguntar ao Chico, mas uma senhora de côr negra entra na sala, carregando um benjamim de olhos assustados.


- "Trago para o senhor, Seu Chico..."

Êle segura com trinta mãos, cheio de cuidados, o bebê e o bebê faz um berreiro dos diabos, agita as pernas, sacode as pernas dentro da prisão dos braços de Chico. Êle sorri e devolve o menino à mãe.

- Meu sobrinho - explica o profeta Chico - é nervoso e fica dêste jeito. Sabe por que? Êle sofre de paralisia infantil.

- Não tratam dêle?

- Não temos recursos. Já deixei claro que não recebo um centavo pelas edições dos livros que me chegam do além. Assino um documento autorizando a livraria da Federação Espírita Brasileira a editá-los e, sòmente após ficarem impressos, recebo uns cinco ou dez exemplares, para dar aos amigos.

Vamos atravessando a sala e entramos num dos quartos. Na parede, prateleiras repletas de livros. Remédios à base de homeopatia, que Chico recomenda. Não sei porque os espíritos manifestam estranha aversão pela alopatia e suas drogas, receitando sempre combinações homeopáticas. Perto dos vidros, um armário cheio de livros. As obras de guerra conta a Santa Sé, assinadas por Guerra Junqueiro, ainda em vida. Os livros de Flammarion e de Alan Kardec, mas não os psicografados, misturados com volumes de propaganda anticlerical. Na parede, dependurado, um velho pandeiro.

- Quem toca pandeiro nesta casa?

Chico sorri o sorriso beatífico e diz que não é êle.

- Alguns espíritos?

O sorriso beatífico desaparece.

- Os espíritos não tocam pandeiro.

Saímos para a rua, hoje, sábado movimentado. O povo de Pedro Leopoldo passeia diante da Igreja que domina de forma esquisita a casa do humilde psicógrafo que Clementino de Alencar, certo dia, foi roubar de sua vida serena há dez anos. Hoje, Pedro Leopoldo é a Jerusalém do credo de Kardec. Já tem hotel e telefone. O povo de lá, por estranho que possa parecer a quem não conhece pessoalmente o nosso amigo Chico, revela invariável amizade. Será orgulho pela celebridade que êle deu ao município? Sim, porque antes de Chico, Pedro Leopoldo nem existia nos mapas de Minas Gerais. Gostam dêle, de seus modos, de sua cara asiática, onde um dos olhos empalideceu sùbitamente, como um farol apagado em pleno caminho da luz.

A cidade tem uns treze mil habitantes, contadas as aldeias próximas, mas, espíritas, uns quatro ou cinco. Todos apreciam Chico, gregos e troianos. Gostam, mas preferem não rezar o seu catecismo. Êle não se importa. Não procura convencer ninguém à fôrça de seu estranho e discutido poder. Quando a carta precatória, intimando-o a depor, chegou a Pedro Leopoldo, Chico leu devagarinho e abanou a cabeça. - "Eu não posso mandar uma intimação judicial às almas!" E não deu mais importância ao caso.

Até à volta, sereno Chico. De tôdas as pavorosas complicações, você é o menos culpado. Parece uma caixa de fósforo num mar bravio. Uma velha beata de Pedro Leopoldo me disse que isto é castigo: - "Castigo, sim, nhô moço... Antão, êle telefona pro inferno e manda chamar os espíritos e depois num quer se aborrecer?"

Já o trombonista de Pedro Leopoldo deve pensar diferente: - "Por que será que o Chico só sabe receber mensagens escritas? Por que não recebe músicas de Beethoven, de Chopin, de Carlos Gomes?"

Êle, o moço amável de Pedro Leopoldo, não dá maior atenção aos comentários e vai levando como pode a sua vida. É pena, entretanto, que êle não tenha as qualidades artísticas que vão além do terreno literário. Se fôsse assim, Pedro Leopoldo teria, senhores, não apenas o psicógrafo Chico, mas também o músico Chico, o pintor Chico, o profeta Chico. Isto mesmo: o profeta Chico.

Fonte: O Cruzeiro - 12 de agosto de 1944.

Complemento.

Hoje, 18/09/2010, li o comentário de Vital Cruvinel, onde o mesmo aponta um outro artigo, fazendo análise do caso e revelando "bastidores". Fica aqui o link:

http://etudespirite.blogspot.com/2010/09/chico-xavier-caso-envolvendo-david.html

read more "Chico Xavier, detetive do Além."

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O feitiço contra o feiticeiro




Amigos,

Com o objetivo de conhecer um pouco mais os fatos marcantes do nosso Movimento Espírita, encontrei na internet essa interessante matéria, transformei-a em PDF para conservá-la e aqui publiquei para apreciação, visto se tratar de um pedaço da "nossa" história.
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Download versão em PDF: Aqui!
read more "Zé Arigó na Prisão - Dezembro, 1964."

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Pesquisando o Espiritismo na Internet, encontrei um material riquíssimo e desconhecido para mim. Trata-se de uma coleção de Selos Postais e Carimbos sobre o Espiritismo, utilizados no Brasil. Considero de valor inestimável para a Cultura Espirita.

"Nesta página, matéria adaptada para Girafamania sobre os 5 primeiros selos postais espíritas do mundo; parte extraída do site Universo Espírita (www.universoespirita.org.br), da série “Documentos Históricos Espíritas” (X Congresso Estadual da USE), escrita originalmente em “Selos Históricos com Motivos Espíritas”, por Eduardo Carvalho Monteiro".

read more "O Espiritismo, Segundo a Filatelia Brasileira."